31 de dezembro de 2009

Martelo e bigorna: o dia que fiz uma espada

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O valor de uma escolha é algo que só sabe quem a faz. Não se deve julgar as escolhas das pessoas, afinal só elas podem valorar o que melhor lhes satisfaz. Não sei aonde irei chegar; só sei que não é justo comigo mesmo ficar parado. Tenho certeza, não irei me arrepender das escolhas que fizer. Digo isso porque será a MINHA escolha, e vou encará-la com todas as minhas forças, seguro de mim. Assim, se no futuro perceber que este caminho não me levará ao Éden, não ficarei frustrado. Sou astuto. Saberei reconhecer o custo da minha felicidade, realização, plenitude, e sem medo retornarei ao Limbo para uma nova decisão. Pior seria entrar em uma vida dita segura e me arrepender de nunca ter me arriscado um pouco mais, vivendo em um Inferno melancólico. Pois quem ignora o próprio talento, fada-se à mediocridade; mas quem venda-se perante o insalubre, entrega-se à eterna decepção.

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9 de setembro de 2009

Um receituário clínico para estancar um coração ferido (versão adaptada)


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Primeiramente, acabe com a dor. Não existe motivo para continuar a queda das lágrimas, e você não quer desperdiçar seu tempo com isso. A melhor maneira é distrair-se com algo ainda pior ou desconfortável que a primeira dor. Não se preocupe, não importa se você pegou a primeira ou a segunda opção, ambas funcionam. Tenha certeza de estar bastante concentrado na questão e, com toda sua vontade, lute por ela até o fim. Lembre-se que esse tipo de dor é profunda e irritante, mas você irá sobreviver. Tente escapar dela usando alguma droga: não é um grande pecado; você é humano, e nós sabemos que ela é dolorosa demais. Ignore o que traga memórias que possam aumentar a primeira dor. Se você realmente precisar – e eu não aconselho a fazer isso – você pode procurar por serviços especializados em curar corações partidos. Não se esqueça de limpar o seu coração e atá-lo bem apertado: não existe qualquer necessidade de deixá-lo aberto para outros problemas. Provavelmente toda esta experiência te deixará algumas cicatrizes feias, mas não se preocupe, ninguém as verá - a não ser que você abra o seu coração novamente. No entanto, se nada disso funcionar, esqueça tudo o que eu falei anteriormente: você se apaixonou demais para ser curado.


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A clinical pilot to stop a heart bleeding (versão original)


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First of all, stop the pain. There’s no reason to keep tears falling, and you don’t want to waste your time with that. The best way to do it is to distract yourself with something even worse or uncomfortable than the first pain. Don’t worry, doesn’t matter if it’s the first or the second choice, both works. Make sure that you are very concentrated and go for it with all your willing. Remember, this kind of hurt is deep and annoying, but you will survive after all. Try to escape it by taking some drugs: that’s not a big sin, you are human, and we know that it’s too painful. Skip what can bring to your mind memories which could increase the first pain. If you really need that - and I don’t advice you to it - you can look for specialized services to stop your heart bleeding. Don’t forget to clean your heart and wrap it very tidy: there’s no need to leave it open for further troubles. Probably all this experience will leave some bad scars on you, but don’t worry, there’s no way to see it unless you open your heart again. However, if none of this works, forget about everything that I said before: you felt in love too deeply to be cured.

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26 de agosto de 2009

O eterno retorno do vento


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Parte I
Um vendaval. Partiu sem dar explicações. Disse que queria ficar, mas, sem lutar, deixou-se levar. Ainda lembro, foi em uma noite nublada em que a lua esgueirava-se pelo céu, que se foi. Uma gota, e depois outra. Nada de chuva, mas o meu céu tinha acabado de desabar. Sem chão, sem rima, com o coração na mão. Café e wiskey foram aos montes, mas nada afastava suas lembranças da minha imaginativa mente de apaixonado. Enrolado aos lençóis, atei-me em um estranho pesadelo que demorava a esmaecer, se foi que esmaeceu. Não, não esmaeceu... Perdurou, me corroeu. E bateu o vento para arrancar das árvores um lamurio frio e sincero, como se concordassem com a minha tristeza. De pé, na escuridão, não sentia as paredes, nem a janela, nem o frio do piso e nem a luz âmbar do banheiro. Corri para rua com os gritos secretos dos corvos, que anunciavam um céu agora limpo, reticente, envolvente. Desumano. Quase como um cão entregue à sarjeta, ou como um moribundo entregue à peste. Definhava. Congelava. Nem pó e nem geada, nada mais me mortificava. Havia sido vencido pela desilusão, pelo carinho proferido pela mão fria do alvorecer.

Parte II
Uma rajada de vento fazia rodopiar as folhas caídas, que dançavam subindo aos céus. Era uma tarde de verão, em que o céu alaranjado tingia de emoção os meus olhos. Uma gota, e depois outra. Caía uma chuva tropical enquanto um carro amarelo parava perto da entrada de minha casa, como se trouxesse um ilustre convidado. Os sons haviam sido abafados, mas os aromas florais tinham tomado conta de todo o ar, eu supunha. Estava entorpecido. Sentia calor, e uma indecorosa onda de calafrio me assolou o corpo por inteiro. Suava, palpitava. Sonhava tão euforicamente que, ora, talvez nada daquilo fosse realmente verdade. Duvidei por um instante, mas a ilusão não chegou ao fim. Era, mesmo, a presença daquele grande sentimento que me fazia envaidecido e etéreo. Dei um passo em sua direção, sentindo o tremor das pernas, do corpo, da alma. Apertei o queixo e, sem querer, arregalei os olhos, procurando entender toda aquela emoção. E, sem qualquer explicação, lá estava de volta, o vendaval.

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O alfaiate


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Entrou no ambiente quando ainda estava escuro. Aos poucos, uma luz suave foi dominando o chão de madeira e a cortina que se esticava ao fundo da sala, revelando que seus ajudantes já estavam a postos para mais uma criação. Tomou seu lugar à frente de todos e olhou-os com superior alegria, deixando que seus olhos cerrassem logo em seguida. Inspirou profundamente, movimentando lentamente cada uma de suas mãos, até que elas quase chegassem a tocar o terno escuro que se alongava até os joelhos. Abriu os olhos, e nada mais viu, a não ser os anjos que aguardavam pelo seu comando. Levantou a longa agulha branca que bradava por uma das extremidades e, com um passe eufórico, iniciou seu trabalho. Pedia uma cor forte, exigia o teor da linha. Costurava harmoniosamente todos os tons, do claro ao escuro, do vistoso ao opaco. Cruzava o dourado com as sombrias notas da morte, e cerzia com total astúcia com os fios daquela magnífica orquestra celestial. Que beleza! Maravilhavam-se os ajudantes com aqueles sábios arranjos e bordados, ao mesmo tempo em que entregavam ao mestre o melhor do que podiam. Uma volúpia de cores e tons se confundiam e se melodiavam, cantando cada um dos pontos e nós perfeitamente conduzidos pelo mestre da branca e longa agulha. Uma dança estonteante e excitante envolvia a todos naquela sala soturna de lâmpadas amareladas, explorando as emoções dos que assistiam aos passos delineados daquele que pairava no centro da entoada comitiva. Insistia em dar bordeadas no ar, intrigando e convencendo do seu poder perante a beleza que arquitetava, até que, de súbito, rasgou o ar com uma punhalada final, fazendo com que sua mágica agulha arrematasse a nota suprema. Fim, estava completa a nova peça do mestre, que suavemente desarmava as outroras palmas dançantes. Repousou a batuta quando ouviu, no outro canto da sala, um barulho parecido com o de chuva se propagar emocionado. “Bravo”, ouviu o mestre. “Bravi” respondeu aos ajudantes e, logo, retirou-se do recinto sem olhar para trás.

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Ps.: Quem ainda não foi, toda terça-feira o Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília oferece sua Orquestra Sinfônica à comunidade. Vestir música aquece a alma.

19 de agosto de 2009

Microensaio sobre a mediocridade


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Estamos todos felizes por termos empregos medíocres, e por voltarmos todos os dias exaustos para casa, seguros que demos toda nossa energia para inflar os bolsos de quaisquer outros, mas não os nossos. Nos agarramos com unhas e dentes às promessas de ascenção profissional e salarial, e acabamos esquecendo que cada passo para cima é um igual para baixo, degradando a nossa moral. Almejamos o inferno - é verdade -, pois este calor asfixiante nos excita e nos faz suar nossas virtudes. O fardo humano é o de acumular; repartir é, então, desumano. E é por isso mesmo que quem reparte é e tem de ser mal visto pela sociedade, por estar negando a sua condição primária de homem. No dia em que lhe rodearem, não importará o quão humano você foi. As pessoas só irão se lembrar dos desumanos, daqueles que pensaram nos outros também. Quando a carne se desfaz, não existe ouro ou poder que a remonte. A vida já se foi, mas os que aqui ainda ficam a pensar, estes não mais se curvarão às riquezas do jazido. Esquecerão o seu nome, a sua história. Para estes que ficam, o homem ali morto nada mais é do que simples refeição vermicular que tarda a ser consumida.

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28 de julho de 2009

Excelência sideral


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O homem tem amor
Pelo cego e infundado se,
Perdido, não se puser a ver
Que com um céu foi agraciado.

Se despreza as constelações,
Admira, então, o opaco.
Não vê razão, nem escuta as canções
Das cores do arco, ou do raio dourado.

O homem que não admira o céu,
Não sabe como foi para os astros cruel;
Não imagina a dor da lua e do sol,
Nem percebe suas decepções no véu.

Pois o homem sem nome,
Se à beleza etérea conlui-se,
Some ao ignorar suas estrelas,
Abstendo-se de sua própria luz.

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22 de julho de 2009

Rosa


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Seria fugaz demais se bastasse a cor;
Singelo se bastassem o aroma e a beleza.
Para senti-la é necessário abrir o coração,
Perfumar os teus suspiros pequenos.

Seguir seus encantos delicados,
Longos, belos, sinuosos, macios.
Mentira mais perfeita; completa
Verdade adornada com loiros raios de sol.

Sustentar sua formalidade,
Beijar o contorno de sua palma,
Perder-me no estreito caminho do seu sorriso.

Entre aveludadas pétalas
Encontrarei em plena ternura
Seus sedosos lábios orvalhados.

Agraciá-la com poemas é pequeno feito.
Dar-lhe todo o mundo é belo conceito.
Deixaria as borboletas beijarem sua face,
Pois no campo vigora ela, na mais bela das graças.

Seus espelhos verdes olhando para mim,
Entrando em crua alma, corrompendo-me até o fim,
Carregou-me para seu leito,
Feriu-me com seus suntuosos espinhos e
Tirou o suor e o sangue, enfim.

Eu seria só mais um, se não fosse pintor.

Afagá-la-ei cada palmo do corpo,
Perder-me-ei na tela, em tão complexo escopo.
Deixá-la-ei me perfumar com seu mistério,
Inebriar-me-ei com sua volúpia incandescente.
Deixar-me-ei a pintá-la, a colori-la com minha felicidade,
Irradiá-la-ei com minha mais sincera poesia.

Justifique para mim a emoção da rosa flor,
Que responderei o porquê dos meus pincéis
Em aquarela perfumada;
É uma tangente formosa da natureza.

Ora sim, ora não.
É poesia pela questão!
Rosa é ora flor que machuca, fere, causa dor.
Rosa é ora mulher que inspira calor,
Por no peito florescer o amor.

Feliz será aquele que souber como tratar
Com a mais bela pintura
A mais cativante das moças.

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20 de julho de 2009

Micro ensaio sobre o segundo


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De um ano precisaria
Para com total exatidão
Um segundo de minha vida
Explicar-lhe com perfeição.


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18 de julho de 2009

Posfácio



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Estiveram a me rodear noite inteira. Eu, na minha íntegra solidão, punha-me a resguardar. Planejei demais, pensei. Planejei viajar pela África e pelas ilhas do sul. Planejei ter dinheiro, mais amigos e mais. Planejei ter uma casa com cerca branca e gramado verdejante. Planejei uma bela esposa e filhos que comigo jogassem bola. Planejei viagens, e vinhos tardios aos 70 anos. Planejei um emprego ótimo e que me dignificasse. Planejei ver mais filmes, e mais casamentos. Planejei casar, e ter filhos, e ter netos. Planejei a festa de quinze anos da minha filha, e os conselhos ao meu garoto. Planejei mais, até onde o vento poderia correr. Planejei ter vida para sempre, planejei envelhecer ao lado de alguém que me amasse. E planejei amar os meus afilhados, e dar vários netos àqueles que sempre me amaram. Planejei ser feliz, sempre alegre e sempre realizado. Planejei ecos de amor, de realização e de solicitude. Planejei ir além, até o infinito. Mas, pai, mãe, irmãos, amigos... Planejei demais. Nesta noite em que me rodeam, gostaria de lhes dizer que planejei demais. Planejei a vida que jamais seguirei, que jamais viverei. Não há tempo para planejar a vida: viver tem de ser agora. Enquanto me rodeam, gostaria de dizer que é preciso viver, viver intensamente, como se não houvesse o amanhã. Pois todo dia que nasce, é o indício que outro dia chegou ao fim. E viver não pode esperar. Viver não pode esperar.
Um grande abraço de quem vai cedo demais.


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Ps.: Ao Kaká, pelos seus 22 anos plenamente vividos.

13 de julho de 2009

O anjo da campa (adaptado)


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Eu sinto o cair da neve,
Em todos os sonhos,
Em minhas asas de leve.

Eu sinto uma forte dor em meus pés.
Eu sinto aquela ingente raiz pelo chão
E, como ela, sou mais uma semente em vão.

Eu toco uma erva daninha escandente
Que me sufoca por completo
Do âmago à garganta, envolvente.

Oh, deus, agora eu posso ver...
Eu sou um anjo
Sem mais o porquê de ser.

- Λ -

The angel of the casket (versão original)


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I can feel snow falling,
On all dreams,
Slowly on my wings.

I can feel a strong pain on my feet
I can feel that huge root on the ground
And as it I'm a forgotten seed

I can touch a climbing weed
Wrapping me all,
From the bottom to the neck

Oh, God, now I can see...
I'm an angel
With no more a place to be.


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10 de julho de 2009

Flash


- ¸ -

Todas aquelas extasiadas pessoas
Que me seguiam atrás com os olhos
Por mais que tentassem
(E tentavam, era verdade),
Nenhuma delas poderia
Saber-me naquele momento.

Havia ardor de dúvida em mim
(Não de futuro arrependido,
Mas de inexperiente compadecido),
E este me amargurava a alma.
Fechava os olhos, pensava.

Ao meu lado, o coração inteiro.
Dentro de mim, o coração partido.
Só esperava que tudo fosse belo
(E verdadeiro, e sincero).
Dali em diante, pouco orgulho
Para mim não seria o bastante.

E na solidão dos meus olhos cerrados,
Ouvi dezenas de opiniões atravessadas
Na memória, como exigências surradas,
De como viver, do que vestir,
Como fazer, o que comer e aonde ir.
(Pensei em ser grosseiro; desisti.)

Senti a mão suada deslizar os dedos.
Percebi que os fatos e a vida gritavam.
Tinha vontade de sorrir, de beijar,
De correr feliz e de sentar
(Mesmo que por um parco instante).

Levantei o rosto exausto e ruborizado
Dos pensamentos imediatos e voluptuosos
(Decisivos foram estes pensamentos!).
Seguro da alegria a contagiar o corpo
Soprei no momento oporturno o veredito:
-SIM, EU A ACEITO.
(Para sempre me lembrarei do belo feito.)


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Ps.: Este poema é dedicado ao meu grande amigo Raphael Tostes e ao meu primo Kadu, os noivos do ano. Parabéns, chará e primão, e vida longa e próspera às novas famílias!

8 de julho de 2009

Delírio onírico


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Quarto escuro
Luzes apagadas, velas apagadas.

Por que sempre me fazes sentir assim
Sozinho e vazio
Quando estás longe?

Não posso voar, pois não tenho asas...
A chuva não molha
E nem irrita.
O sol não é grande
E os perfumes não me cativam.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por toda a noite.
E toda noite irei regressar,
Vibrar e esperar...
Até você retornar.

Deixa-me provar-te
Que posso ser tudo
E absolutamente tudo o que queres encontrar.
E nunca mais correrás de mim,
Noite adentro, desilusão.

Acendo as velas
Vejo os teus olhos a brilhar na minha solidão.

Afaga-me, mostra-me o teu sorriso.
Ilumine o meu coração.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por toda a noite.
E toda noite irei regressar,
Vibrar e esperar...
Até você retornar.

Usa-me e deixa-me te usar.
Conte-me teus sentimentos, tuas esperanças.
Ferramentas do destino,
Alimentadas pela sensação de ser muito, muito grande.

Aumente
A minha emoção
Os meus anseios
Os teus ardores
Os teus desejos.

Podemos entender tudo isso.
Basta que me abra o teu peito.
Basta que não mais fujas de mim!

Mas ainda assim tenho medo.
Pois toda manhã, ao abrir os olhos...
Tu evades de meu calor!

Não quero que apague as velas quando for embora.
Não quero que me deixe sozinho nos meus pensamentos.
Nem quero ter de imaginar, e só imaginar, o teu corpo.

Se for para ser, que então assim seja.
Mas se não for para ser...
Então desabite os meus sonhos,
Largue dos meus pensamentos,
Fuja de meus olhos,
Corra de meu bem querer.

Pois, ao acordar, só quero pensar em uma coisa.
Que fizeste a escolha certa.
Ao meu lado, ou de outrem...
Pois de ilusão não pode viver um homem.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por todas as noites outonais.
E, na invernia, toda noite irei regressar,
Vibrar o verão e esperar...
Até você retornar na primaveril manhã.

Acorda-me!
Mostra-me que acertei, e que ficarás para sempre.
Que não és a abstrata alma fugida dos meus sonhos de verão.
Que és a mais das mais belas.
E que cuidarás de mim pela noite.
Janela aberta, vento frio e singelo.
Peito ao peito, corpo ao corpo.
E nada mais.


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Ps.: O onirismo (ou delírio onírico) é um e
stado delirante com vários graus de intensidade, caracterizado por alucinações visuais, da sensibilidade geral e dos músculos. A ele está relacionado a indiferenciação da realidade e do sonho.

6 de julho de 2009

Classificados


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Procuro garota sem namorado, e sem neuroses. Que goste de conversar, de ir ao cinema, ao teatro, exposições e festas de hip hop e à fantasia. Que goste de viajar e acampar perto de cachoeiras e na praia. Que não se aborreça se eu esquecer de ligar no dia seguinte. Que goste de brincar na cozinha, que goste de surpresas e que não se importe em comer um cachorro quente no final da noite.

Procuro garota que goste de curtir um friozinho perto da lareira, aproveitando um vinho em taça grande de cristal, um fondue e o calor do meu peito. E que goste de correr e dançar na chuva e nadar no mar à noite, quando ninguém tiver nos vendo. E que aceite minhas meias de lã quando nada mais der resultado.

Procuro garota que seja simpática e alegre, modesta e inteligente. Que goste de admirar as estrelas e de fazer carinho nas minhas costas. E que adore fazer coisas novas, criativas e que não se aborreça (muito) se eu roncar a noite. E que desenhe nas nuvens do céu.

Procuro garota que goste de dividir a conta, mas que não se chateie se eu me oferecer para pagá-la por completo. E que goste de fazer jogos de amor, vendando meus olhos e me fazendo descobrir os desejos que não posso ver.

Procuro garota que seja fiel e goste realmente de mim, e que deixaria tudo para viver comigo, mesmo que nem pensemos em fazer isso. Que goste de dançar e que não fique brava se eu beber um pouco a mais no baile. Que goste de ouvir música perto da piscina e que não se importe com o papo viajante dos meus amigos.

Procuro garota que não se importe se a grana faltar e tivermos que assistir um videozinho na noite de sábado, comendo pipoca e se embrulhando no cobertor. E que seja, sem força, a mais encantadora mulher ao me acompanhar em jantares de gala.

Procuro uma garota que me ligue para perguntar como foi meu dia, mas que não fique mais do que 5 minutos no telefone. Que me escreva emails, que goste de ficar me olhando e que não se sinta mal se eu chorar perante sua beleza. E que ao menos finja que gostou do meu esforçado café da manhã.

Procuro garota que goste de caminhar no parque e de comer qualquer tipo de massa. E que não gaste mais do que 5 dólares no meu presente de aniversário.

Procuro uma garota que não posso ver, que está em total desencontro comigo. Procuro alguém que se esconde por medo ou por insegurança. Procuro ela que está longe ou que ainda não conheço, que está onde minha vista não alcança.

Procuro garota que possa estar debaixo do meu nariz, mas que meus olhos e coração não conseguem perceber...

Por favor, se você souber dessa garota... Fale que tem alguém esperando por ela, e que sem ela a vida dele não tem muito sentido.


- φ -

4 de julho de 2009

O jovem estasiófobo


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Via todos passarem correndo.
Do seu canto vazio imaginava
A coragem daqueles que iam.
Andando, no medo, cairia.

Perdia-se aonde ficava, na solidão.
Adorava-a, odiava-a. Respeitava-a.
Para si, sabia que não haveria
Outra realidade ou vida sã. Ilusão.

O porquê dele ficar ali, vadiando,
Ora deitado, ora sentado,
Vagabundo dos lençóis desdobrados,
Ninguém se importava em entender.

Passou dia, outro dia. Mês e ano.
A família pelejava, ninguém o levantaria.
Veio sem avisar, no silêncio molhado,
O avô rodando em cadeira de guia.

Olhou fundo nos olhos do neto e
Deitou sua mão cansada no choroso braço.
“Uma hora isso passa, noite ou dia.
Enquanto isso, te faço companhia”.


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Ps.: Estasiofobia é o medo profundo, irracional, mórbido e persistente em manter-se de pé. Apesar de parecer absurdo e inexistente, muitos idosos sofrem desta fobia.

1 de julho de 2009

Meio dia na enfermaria


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Despertou. Pensou. Sentou. Procurou. Encontrou. Constatou. Chamou. Reclamou. Esperou. Almoçou. Limpou. Procurou. Encontrou. Ligou. Deitou. Assistiu. Aumentou. Mudou. Assistiu. Mudou. Assistiu. Pensou. Chorou. Mudou. Assistiu. Sorriu. Riu. Gargalhou. Desligou. Sentou. Chamou. Informou. Arriou. Urinou. Subiu. Agradeceu. Procurou. Pegou. Descartou. Pegou. Descartou. Pegou. Escolheu. Deitou. Abriu. Leu. Folheou. Leu. Folheou. Leu. Riu. Folheou. Leu. Entristeceu. Folheou. Leu. Fechou. Sentou. Descartou. Pegou. Bebeu. Deitou. Cobriu. Repousou.

- Λ -

23 de junho de 2009

Jamais olhes para o céu


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Acordou perto do meio-dia.
Tomou o café preto, pegou
Corrido o pão dormido e
Logo quedou a andar. Tanto
Andava como sempre fazia,
Apertava o passo. Corria.

Olhava sem muitas esperanças,
Ora aqui, outra vez por ali.
Mais uma vez a sorrir, quando
O que mais queria era bocejar.
Sem direito nenhum para abordar.

Apelava para os versos feitos,
Calejados e sem efeito. Como
Eram seus versos e pés, perdidos.
Curtos e evasivos. Sumidos.

Caía garoa quando ainda andava.
Não pararia agora. Precisava.
Mudava a rua e tropeçava na tardia
Hora solitária que se aproximava.

Foi encontrar no fim da noite.
Lua cheia de esperança. Tanta era
A esperança que o olho brilhava.
Engoliu a seco, sentiu o gelo
No umbigo consumi-lo. Palpitava.

Jogou ao vento em movimento;
Abriu o peito e recitou,
Pesando a dúvida como quem
Implora por um favor:
"Vai graxa, doutor?".


- -

17 de junho de 2009

Saltitando


- ^ -

Tu vais saber como ler este poema direito, não?
ou
Lerás erroneamente esta minha confusa écloga sem sentido?

Talvez seria suficiente
Ler ridículas histórias que
Viver uma vida sem prólogo e
Estar em vazia promiscuidade é
Simplesmente tornar-me deserto.
Encontrar-se pleno, é puro exagero.
Cautelar-me seria prudente.
Mas, incompleto fui criado e
Letrado, estudado, percebi que
Com asas, agraciado.
Embelezar o destino
É dever de todo homem,
Pedindo pela graça da felicidade,
Seja pelas mãos humanas ou sonhos,
Onde divinos e belos sejam os fins, é
Ser, em seu íntimo, realizado.
Não só passar pela vida, mas viver plenamente.

- Λ -

Ps.: Este texto é um tresebrium (composição de dois textos distintos formando um terceiro, cada um com sentido único). Para a primeira versão, leia no poema os versos que se iniciam com as letras iniciais das palavras da primeira frase superior (T, V, S...). Faça o mesmo com a segunda frase superior para ler a segunda versão (L, E, E...). Para a terceira, leia o texto completo (T, L, V, E...).

16 de junho de 2009

Pois, se um não quer...


- ˛ -

Não há maior raiva, ódio, ira
E nem maior inveja, ciúme, mentira
Não há temor, dúvida e nem receio
Não existe nada que justifique a covardia.

E se o pior de seus defensores vier,
Surgir ou se levantar,
Haverá um forte de empunhar
Não o braço, mas o coração
E, assim, o irá derrotar.

Pois podem os malvistos atacarem,
Correrem ou se esconderem,
Que dos fatais toques da verdade
Jamais poderão se esquivar.

E se o punho for maior que a razão,
Que prevaleça a força, então.
Mas nunca perderá o vigor
A mais esquérrima que seja
Sinceridade aberta em fútil dor.

De dois corpos não salta
O danado ímpeto ridículo.
O infundado embate não travam.

Um negará, pela razão, tal vínculo
E, assim, para completar a pauta,
Dois não brigam.

- φ -

15 de junho de 2009

Psiquê


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Amores, amores... tantas são as tuas cores
De que é feito o homem senão de temores
Que se perdem no grande e infinito breu
Quero deus que encontre força no peito meu

Sem árduo trabalho, interpela-me como tua
Chama eterna do teu nome em minha carne nua

Busco-te então, amores-amores
Tragas nossos corações em louvores.

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Ps.: Psiquê, a mais bela humana transformada em deusa, é a eterna apaixonada esposa de Eros (grego) ou Cupido (romano), também conhecido simplesmente como Amor.

14 de junho de 2009

Terraformação


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Jogou a gota e esperou
O mar nascente jorrar
O ar em seguida colocou
E riu do vento a soprar

O pequeno monte esculpiu
Viu a montanha formar
A trôpega fagulha expandiu
No grandioso fogo a brilhar

O homem então surgiu
Um mundo inteiro a explorar
Lembrou do sonho infantil
Das emoções que iria salvar

Era chão leigo, brandeado
Onde soa hoje laica a campana
Emana do homem o apego
Ao santuário pelo poeta bradado.


- Λ φ -

Ps.: Terraformação é a denominação dada ao processo, até agora teórico, de modificar um planeta, um satélite natural ou outro corpo celeste para que este tenha condições de ser habitado por humanos, apresentando atmosfera e temperatura semelhantes às da Terra. Nos dias de hoje, cientistas especulam que a sobrevivência futura da raça humana no universo depende, invariavelmente, da colonização de ambientes terraformados. Na área poética, um poeta terraformado é aquele que mostra-se agradável aos leitores por meio de sua capacidade de seduzi-los com sua poesia (definição por A. Vives).