19 de agosto de 2009

Microensaio sobre a mediocridade


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Estamos todos felizes por termos empregos medíocres, e por voltarmos todos os dias exaustos para casa, seguros que demos toda nossa energia para inflar os bolsos de quaisquer outros, mas não os nossos. Nos agarramos com unhas e dentes às promessas de ascenção profissional e salarial, e acabamos esquecendo que cada passo para cima é um igual para baixo, degradando a nossa moral. Almejamos o inferno - é verdade -, pois este calor asfixiante nos excita e nos faz suar nossas virtudes. O fardo humano é o de acumular; repartir é, então, desumano. E é por isso mesmo que quem reparte é e tem de ser mal visto pela sociedade, por estar negando a sua condição primária de homem. No dia em que lhe rodearem, não importará o quão humano você foi. As pessoas só irão se lembrar dos desumanos, daqueles que pensaram nos outros também. Quando a carne se desfaz, não existe ouro ou poder que a remonte. A vida já se foi, mas os que aqui ainda ficam a pensar, estes não mais se curvarão às riquezas do jazido. Esquecerão o seu nome, a sua história. Para estes que ficam, o homem ali morto nada mais é do que simples refeição vermicular que tarda a ser consumida.

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