23 de junho de 2009

Jamais olhes para o céu


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Acordou perto do meio-dia.
Tomou o café preto, pegou
Corrido o pão dormido e
Logo quedou a andar. Tanto
Andava como sempre fazia,
Apertava o passo. Corria.

Olhava sem muitas esperanças,
Ora aqui, outra vez por ali.
Mais uma vez a sorrir, quando
O que mais queria era bocejar.
Sem direito nenhum para abordar.

Apelava para os versos feitos,
Calejados e sem efeito. Como
Eram seus versos e pés, perdidos.
Curtos e evasivos. Sumidos.

Caía garoa quando ainda andava.
Não pararia agora. Precisava.
Mudava a rua e tropeçava na tardia
Hora solitária que se aproximava.

Foi encontrar no fim da noite.
Lua cheia de esperança. Tanta era
A esperança que o olho brilhava.
Engoliu a seco, sentiu o gelo
No umbigo consumi-lo. Palpitava.

Jogou ao vento em movimento;
Abriu o peito e recitou,
Pesando a dúvida como quem
Implora por um favor:
"Vai graxa, doutor?".


- -

17 de junho de 2009

Saltitando


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Tu vais saber como ler este poema direito, não?
ou
Lerás erroneamente esta minha confusa écloga sem sentido?

Talvez seria suficiente
Ler ridículas histórias que
Viver uma vida sem prólogo e
Estar em vazia promiscuidade é
Simplesmente tornar-me deserto.
Encontrar-se pleno, é puro exagero.
Cautelar-me seria prudente.
Mas, incompleto fui criado e
Letrado, estudado, percebi que
Com asas, agraciado.
Embelezar o destino
É dever de todo homem,
Pedindo pela graça da felicidade,
Seja pelas mãos humanas ou sonhos,
Onde divinos e belos sejam os fins, é
Ser, em seu íntimo, realizado.
Não só passar pela vida, mas viver plenamente.

- Λ -

Ps.: Este texto é um tresebrium (composição de dois textos distintos formando um terceiro, cada um com sentido único). Para a primeira versão, leia no poema os versos que se iniciam com as letras iniciais das palavras da primeira frase superior (T, V, S...). Faça o mesmo com a segunda frase superior para ler a segunda versão (L, E, E...). Para a terceira, leia o texto completo (T, L, V, E...).

16 de junho de 2009

Pois, se um não quer...


- ˛ -

Não há maior raiva, ódio, ira
E nem maior inveja, ciúme, mentira
Não há temor, dúvida e nem receio
Não existe nada que justifique a covardia.

E se o pior de seus defensores vier,
Surgir ou se levantar,
Haverá um forte de empunhar
Não o braço, mas o coração
E, assim, o irá derrotar.

Pois podem os malvistos atacarem,
Correrem ou se esconderem,
Que dos fatais toques da verdade
Jamais poderão se esquivar.

E se o punho for maior que a razão,
Que prevaleça a força, então.
Mas nunca perderá o vigor
A mais esquérrima que seja
Sinceridade aberta em fútil dor.

De dois corpos não salta
O danado ímpeto ridículo.
O infundado embate não travam.

Um negará, pela razão, tal vínculo
E, assim, para completar a pauta,
Dois não brigam.

- φ -

15 de junho de 2009

Psiquê


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Amores, amores... tantas são as tuas cores
De que é feito o homem senão de temores
Que se perdem no grande e infinito breu
Quero deus que encontre força no peito meu

Sem árduo trabalho, interpela-me como tua
Chama eterna do teu nome em minha carne nua

Busco-te então, amores-amores
Tragas nossos corações em louvores.

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Ps.: Psiquê, a mais bela humana transformada em deusa, é a eterna apaixonada esposa de Eros (grego) ou Cupido (romano), também conhecido simplesmente como Amor.

14 de junho de 2009

Terraformação


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Jogou a gota e esperou
O mar nascente jorrar
O ar em seguida colocou
E riu do vento a soprar

O pequeno monte esculpiu
Viu a montanha formar
A trôpega fagulha expandiu
No grandioso fogo a brilhar

O homem então surgiu
Um mundo inteiro a explorar
Lembrou do sonho infantil
Das emoções que iria salvar

Era chão leigo, brandeado
Onde soa hoje laica a campana
Emana do homem o apego
Ao santuário pelo poeta bradado.


- Λ φ -

Ps.: Terraformação é a denominação dada ao processo, até agora teórico, de modificar um planeta, um satélite natural ou outro corpo celeste para que este tenha condições de ser habitado por humanos, apresentando atmosfera e temperatura semelhantes às da Terra. Nos dias de hoje, cientistas especulam que a sobrevivência futura da raça humana no universo depende, invariavelmente, da colonização de ambientes terraformados. Na área poética, um poeta terraformado é aquele que mostra-se agradável aos leitores por meio de sua capacidade de seduzi-los com sua poesia (definição por A. Vives).