Parte I
Um vendaval. Partiu sem dar explicações. Disse que queria ficar, mas, sem lutar, deixou-se levar. Ainda lembro, foi em uma noite nublada em que a lua esgueirava-se pelo céu, que se foi. Uma gota, e depois outra. Nada de chuva, mas o meu céu tinha acabado de desabar. Sem chão, sem rima, com o coração na mão. Café e wiskey foram aos montes, mas nada afastava suas lembranças da minha imaginativa mente de apaixonado. Enrolado aos lençóis, atei-me em um estranho pesadelo que demorava a esmaecer, se foi que esmaeceu. Não, não esmaeceu... Perdurou, me corroeu. E bateu o vento para arrancar das árvores um lamurio frio e sincero, como se concordassem com a minha tristeza. De pé, na escuridão, não sentia as paredes, nem a janela, nem o frio do piso e nem a luz âmbar do banheiro. Corri para rua com os gritos secretos dos corvos, que anunciavam um céu agora limpo, reticente, envolvente. Desumano. Quase como um cão entregue à sarjeta, ou como um moribundo entregue à peste. Definhava. Congelava. Nem pó e nem geada, nada mais me mortificava. Havia sido vencido pela desilusão, pelo carinho proferido pela mão fria do alvorecer.Parte II
Uma rajada de vento fazia rodopiar as folhas caídas, que dançavam subindo aos céus. Era uma tarde de verão, em que o céu alaranjado tingia de emoção os meus olhos. Uma gota, e depois outra. Caía uma chuva tropical enquanto um carro amarelo parava perto da entrada de minha casa, como se trouxesse um ilustre convidado. Os sons haviam sido abafados, mas os aromas florais tinham tomado conta de todo o ar, eu supunha. Estava entorpecido. Sentia calor, e uma indecorosa onda de calafrio me assolou o corpo por inteiro. Suava, palpitava. Sonhava tão euforicamente que, ora, talvez nada daquilo fosse realmente verdade. Duvidei por um instante, mas a ilusão não chegou ao fim. Era, mesmo, a presença daquele grande sentimento que me fazia envaidecido e etéreo. Dei um passo em sua direção, sentindo o tremor das pernas, do corpo, da alma. Apertei o queixo e, sem querer, arregalei os olhos, procurando entender toda aquela emoção. E, sem qualquer explicação, lá estava de volta, o vendaval.