26 de agosto de 2009

O eterno retorno do vento


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Parte I
Um vendaval. Partiu sem dar explicações. Disse que queria ficar, mas, sem lutar, deixou-se levar. Ainda lembro, foi em uma noite nublada em que a lua esgueirava-se pelo céu, que se foi. Uma gota, e depois outra. Nada de chuva, mas o meu céu tinha acabado de desabar. Sem chão, sem rima, com o coração na mão. Café e wiskey foram aos montes, mas nada afastava suas lembranças da minha imaginativa mente de apaixonado. Enrolado aos lençóis, atei-me em um estranho pesadelo que demorava a esmaecer, se foi que esmaeceu. Não, não esmaeceu... Perdurou, me corroeu. E bateu o vento para arrancar das árvores um lamurio frio e sincero, como se concordassem com a minha tristeza. De pé, na escuridão, não sentia as paredes, nem a janela, nem o frio do piso e nem a luz âmbar do banheiro. Corri para rua com os gritos secretos dos corvos, que anunciavam um céu agora limpo, reticente, envolvente. Desumano. Quase como um cão entregue à sarjeta, ou como um moribundo entregue à peste. Definhava. Congelava. Nem pó e nem geada, nada mais me mortificava. Havia sido vencido pela desilusão, pelo carinho proferido pela mão fria do alvorecer.

Parte II
Uma rajada de vento fazia rodopiar as folhas caídas, que dançavam subindo aos céus. Era uma tarde de verão, em que o céu alaranjado tingia de emoção os meus olhos. Uma gota, e depois outra. Caía uma chuva tropical enquanto um carro amarelo parava perto da entrada de minha casa, como se trouxesse um ilustre convidado. Os sons haviam sido abafados, mas os aromas florais tinham tomado conta de todo o ar, eu supunha. Estava entorpecido. Sentia calor, e uma indecorosa onda de calafrio me assolou o corpo por inteiro. Suava, palpitava. Sonhava tão euforicamente que, ora, talvez nada daquilo fosse realmente verdade. Duvidei por um instante, mas a ilusão não chegou ao fim. Era, mesmo, a presença daquele grande sentimento que me fazia envaidecido e etéreo. Dei um passo em sua direção, sentindo o tremor das pernas, do corpo, da alma. Apertei o queixo e, sem querer, arregalei os olhos, procurando entender toda aquela emoção. E, sem qualquer explicação, lá estava de volta, o vendaval.

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O alfaiate


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Entrou no ambiente quando ainda estava escuro. Aos poucos, uma luz suave foi dominando o chão de madeira e a cortina que se esticava ao fundo da sala, revelando que seus ajudantes já estavam a postos para mais uma criação. Tomou seu lugar à frente de todos e olhou-os com superior alegria, deixando que seus olhos cerrassem logo em seguida. Inspirou profundamente, movimentando lentamente cada uma de suas mãos, até que elas quase chegassem a tocar o terno escuro que se alongava até os joelhos. Abriu os olhos, e nada mais viu, a não ser os anjos que aguardavam pelo seu comando. Levantou a longa agulha branca que bradava por uma das extremidades e, com um passe eufórico, iniciou seu trabalho. Pedia uma cor forte, exigia o teor da linha. Costurava harmoniosamente todos os tons, do claro ao escuro, do vistoso ao opaco. Cruzava o dourado com as sombrias notas da morte, e cerzia com total astúcia com os fios daquela magnífica orquestra celestial. Que beleza! Maravilhavam-se os ajudantes com aqueles sábios arranjos e bordados, ao mesmo tempo em que entregavam ao mestre o melhor do que podiam. Uma volúpia de cores e tons se confundiam e se melodiavam, cantando cada um dos pontos e nós perfeitamente conduzidos pelo mestre da branca e longa agulha. Uma dança estonteante e excitante envolvia a todos naquela sala soturna de lâmpadas amareladas, explorando as emoções dos que assistiam aos passos delineados daquele que pairava no centro da entoada comitiva. Insistia em dar bordeadas no ar, intrigando e convencendo do seu poder perante a beleza que arquitetava, até que, de súbito, rasgou o ar com uma punhalada final, fazendo com que sua mágica agulha arrematasse a nota suprema. Fim, estava completa a nova peça do mestre, que suavemente desarmava as outroras palmas dançantes. Repousou a batuta quando ouviu, no outro canto da sala, um barulho parecido com o de chuva se propagar emocionado. “Bravo”, ouviu o mestre. “Bravi” respondeu aos ajudantes e, logo, retirou-se do recinto sem olhar para trás.

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Ps.: Quem ainda não foi, toda terça-feira o Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília oferece sua Orquestra Sinfônica à comunidade. Vestir música aquece a alma.

19 de agosto de 2009

Microensaio sobre a mediocridade


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Estamos todos felizes por termos empregos medíocres, e por voltarmos todos os dias exaustos para casa, seguros que demos toda nossa energia para inflar os bolsos de quaisquer outros, mas não os nossos. Nos agarramos com unhas e dentes às promessas de ascenção profissional e salarial, e acabamos esquecendo que cada passo para cima é um igual para baixo, degradando a nossa moral. Almejamos o inferno - é verdade -, pois este calor asfixiante nos excita e nos faz suar nossas virtudes. O fardo humano é o de acumular; repartir é, então, desumano. E é por isso mesmo que quem reparte é e tem de ser mal visto pela sociedade, por estar negando a sua condição primária de homem. No dia em que lhe rodearem, não importará o quão humano você foi. As pessoas só irão se lembrar dos desumanos, daqueles que pensaram nos outros também. Quando a carne se desfaz, não existe ouro ou poder que a remonte. A vida já se foi, mas os que aqui ainda ficam a pensar, estes não mais se curvarão às riquezas do jazido. Esquecerão o seu nome, a sua história. Para estes que ficam, o homem ali morto nada mais é do que simples refeição vermicular que tarda a ser consumida.

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