26 de agosto de 2009

O alfaiate


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Entrou no ambiente quando ainda estava escuro. Aos poucos, uma luz suave foi dominando o chão de madeira e a cortina que se esticava ao fundo da sala, revelando que seus ajudantes já estavam a postos para mais uma criação. Tomou seu lugar à frente de todos e olhou-os com superior alegria, deixando que seus olhos cerrassem logo em seguida. Inspirou profundamente, movimentando lentamente cada uma de suas mãos, até que elas quase chegassem a tocar o terno escuro que se alongava até os joelhos. Abriu os olhos, e nada mais viu, a não ser os anjos que aguardavam pelo seu comando. Levantou a longa agulha branca que bradava por uma das extremidades e, com um passe eufórico, iniciou seu trabalho. Pedia uma cor forte, exigia o teor da linha. Costurava harmoniosamente todos os tons, do claro ao escuro, do vistoso ao opaco. Cruzava o dourado com as sombrias notas da morte, e cerzia com total astúcia com os fios daquela magnífica orquestra celestial. Que beleza! Maravilhavam-se os ajudantes com aqueles sábios arranjos e bordados, ao mesmo tempo em que entregavam ao mestre o melhor do que podiam. Uma volúpia de cores e tons se confundiam e se melodiavam, cantando cada um dos pontos e nós perfeitamente conduzidos pelo mestre da branca e longa agulha. Uma dança estonteante e excitante envolvia a todos naquela sala soturna de lâmpadas amareladas, explorando as emoções dos que assistiam aos passos delineados daquele que pairava no centro da entoada comitiva. Insistia em dar bordeadas no ar, intrigando e convencendo do seu poder perante a beleza que arquitetava, até que, de súbito, rasgou o ar com uma punhalada final, fazendo com que sua mágica agulha arrematasse a nota suprema. Fim, estava completa a nova peça do mestre, que suavemente desarmava as outroras palmas dançantes. Repousou a batuta quando ouviu, no outro canto da sala, um barulho parecido com o de chuva se propagar emocionado. “Bravo”, ouviu o mestre. “Bravi” respondeu aos ajudantes e, logo, retirou-se do recinto sem olhar para trás.

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Ps.: Quem ainda não foi, toda terça-feira o Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília oferece sua Orquestra Sinfônica à comunidade. Vestir música aquece a alma.