28 de julho de 2009

Excelência sideral


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O homem tem amor
Pelo cego e infundado se,
Perdido, não se puser a ver
Que com um céu foi agraciado.

Se despreza as constelações,
Admira, então, o opaco.
Não vê razão, nem escuta as canções
Das cores do arco, ou do raio dourado.

O homem que não admira o céu,
Não sabe como foi para os astros cruel;
Não imagina a dor da lua e do sol,
Nem percebe suas decepções no véu.

Pois o homem sem nome,
Se à beleza etérea conlui-se,
Some ao ignorar suas estrelas,
Abstendo-se de sua própria luz.

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22 de julho de 2009

Rosa


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Seria fugaz demais se bastasse a cor;
Singelo se bastassem o aroma e a beleza.
Para senti-la é necessário abrir o coração,
Perfumar os teus suspiros pequenos.

Seguir seus encantos delicados,
Longos, belos, sinuosos, macios.
Mentira mais perfeita; completa
Verdade adornada com loiros raios de sol.

Sustentar sua formalidade,
Beijar o contorno de sua palma,
Perder-me no estreito caminho do seu sorriso.

Entre aveludadas pétalas
Encontrarei em plena ternura
Seus sedosos lábios orvalhados.

Agraciá-la com poemas é pequeno feito.
Dar-lhe todo o mundo é belo conceito.
Deixaria as borboletas beijarem sua face,
Pois no campo vigora ela, na mais bela das graças.

Seus espelhos verdes olhando para mim,
Entrando em crua alma, corrompendo-me até o fim,
Carregou-me para seu leito,
Feriu-me com seus suntuosos espinhos e
Tirou o suor e o sangue, enfim.

Eu seria só mais um, se não fosse pintor.

Afagá-la-ei cada palmo do corpo,
Perder-me-ei na tela, em tão complexo escopo.
Deixá-la-ei me perfumar com seu mistério,
Inebriar-me-ei com sua volúpia incandescente.
Deixar-me-ei a pintá-la, a colori-la com minha felicidade,
Irradiá-la-ei com minha mais sincera poesia.

Justifique para mim a emoção da rosa flor,
Que responderei o porquê dos meus pincéis
Em aquarela perfumada;
É uma tangente formosa da natureza.

Ora sim, ora não.
É poesia pela questão!
Rosa é ora flor que machuca, fere, causa dor.
Rosa é ora mulher que inspira calor,
Por no peito florescer o amor.

Feliz será aquele que souber como tratar
Com a mais bela pintura
A mais cativante das moças.

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20 de julho de 2009

Micro ensaio sobre o segundo


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De um ano precisaria
Para com total exatidão
Um segundo de minha vida
Explicar-lhe com perfeição.


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18 de julho de 2009

Posfácio



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Estiveram a me rodear noite inteira. Eu, na minha íntegra solidão, punha-me a resguardar. Planejei demais, pensei. Planejei viajar pela África e pelas ilhas do sul. Planejei ter dinheiro, mais amigos e mais. Planejei ter uma casa com cerca branca e gramado verdejante. Planejei uma bela esposa e filhos que comigo jogassem bola. Planejei viagens, e vinhos tardios aos 70 anos. Planejei um emprego ótimo e que me dignificasse. Planejei ver mais filmes, e mais casamentos. Planejei casar, e ter filhos, e ter netos. Planejei a festa de quinze anos da minha filha, e os conselhos ao meu garoto. Planejei mais, até onde o vento poderia correr. Planejei ter vida para sempre, planejei envelhecer ao lado de alguém que me amasse. E planejei amar os meus afilhados, e dar vários netos àqueles que sempre me amaram. Planejei ser feliz, sempre alegre e sempre realizado. Planejei ecos de amor, de realização e de solicitude. Planejei ir além, até o infinito. Mas, pai, mãe, irmãos, amigos... Planejei demais. Nesta noite em que me rodeam, gostaria de lhes dizer que planejei demais. Planejei a vida que jamais seguirei, que jamais viverei. Não há tempo para planejar a vida: viver tem de ser agora. Enquanto me rodeam, gostaria de dizer que é preciso viver, viver intensamente, como se não houvesse o amanhã. Pois todo dia que nasce, é o indício que outro dia chegou ao fim. E viver não pode esperar. Viver não pode esperar.
Um grande abraço de quem vai cedo demais.


- φ -

Ps.: Ao Kaká, pelos seus 22 anos plenamente vividos.

13 de julho de 2009

O anjo da campa (adaptado)


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Eu sinto o cair da neve,
Em todos os sonhos,
Em minhas asas de leve.

Eu sinto uma forte dor em meus pés.
Eu sinto aquela ingente raiz pelo chão
E, como ela, sou mais uma semente em vão.

Eu toco uma erva daninha escandente
Que me sufoca por completo
Do âmago à garganta, envolvente.

Oh, deus, agora eu posso ver...
Eu sou um anjo
Sem mais o porquê de ser.

- Λ -

The angel of the casket (versão original)


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I can feel snow falling,
On all dreams,
Slowly on my wings.

I can feel a strong pain on my feet
I can feel that huge root on the ground
And as it I'm a forgotten seed

I can touch a climbing weed
Wrapping me all,
From the bottom to the neck

Oh, God, now I can see...
I'm an angel
With no more a place to be.


- -


10 de julho de 2009

Flash


- ¸ -

Todas aquelas extasiadas pessoas
Que me seguiam atrás com os olhos
Por mais que tentassem
(E tentavam, era verdade),
Nenhuma delas poderia
Saber-me naquele momento.

Havia ardor de dúvida em mim
(Não de futuro arrependido,
Mas de inexperiente compadecido),
E este me amargurava a alma.
Fechava os olhos, pensava.

Ao meu lado, o coração inteiro.
Dentro de mim, o coração partido.
Só esperava que tudo fosse belo
(E verdadeiro, e sincero).
Dali em diante, pouco orgulho
Para mim não seria o bastante.

E na solidão dos meus olhos cerrados,
Ouvi dezenas de opiniões atravessadas
Na memória, como exigências surradas,
De como viver, do que vestir,
Como fazer, o que comer e aonde ir.
(Pensei em ser grosseiro; desisti.)

Senti a mão suada deslizar os dedos.
Percebi que os fatos e a vida gritavam.
Tinha vontade de sorrir, de beijar,
De correr feliz e de sentar
(Mesmo que por um parco instante).

Levantei o rosto exausto e ruborizado
Dos pensamentos imediatos e voluptuosos
(Decisivos foram estes pensamentos!).
Seguro da alegria a contagiar o corpo
Soprei no momento oporturno o veredito:
-SIM, EU A ACEITO.
(Para sempre me lembrarei do belo feito.)


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Ps.: Este poema é dedicado ao meu grande amigo Raphael Tostes e ao meu primo Kadu, os noivos do ano. Parabéns, chará e primão, e vida longa e próspera às novas famílias!

8 de julho de 2009

Delírio onírico


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Quarto escuro
Luzes apagadas, velas apagadas.

Por que sempre me fazes sentir assim
Sozinho e vazio
Quando estás longe?

Não posso voar, pois não tenho asas...
A chuva não molha
E nem irrita.
O sol não é grande
E os perfumes não me cativam.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por toda a noite.
E toda noite irei regressar,
Vibrar e esperar...
Até você retornar.

Deixa-me provar-te
Que posso ser tudo
E absolutamente tudo o que queres encontrar.
E nunca mais correrás de mim,
Noite adentro, desilusão.

Acendo as velas
Vejo os teus olhos a brilhar na minha solidão.

Afaga-me, mostra-me o teu sorriso.
Ilumine o meu coração.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por toda a noite.
E toda noite irei regressar,
Vibrar e esperar...
Até você retornar.

Usa-me e deixa-me te usar.
Conte-me teus sentimentos, tuas esperanças.
Ferramentas do destino,
Alimentadas pela sensação de ser muito, muito grande.

Aumente
A minha emoção
Os meus anseios
Os teus ardores
Os teus desejos.

Podemos entender tudo isso.
Basta que me abra o teu peito.
Basta que não mais fujas de mim!

Mas ainda assim tenho medo.
Pois toda manhã, ao abrir os olhos...
Tu evades de meu calor!

Não quero que apague as velas quando for embora.
Não quero que me deixe sozinho nos meus pensamentos.
Nem quero ter de imaginar, e só imaginar, o teu corpo.

Se for para ser, que então assim seja.
Mas se não for para ser...
Então desabite os meus sonhos,
Largue dos meus pensamentos,
Fuja de meus olhos,
Corra de meu bem querer.

Pois, ao acordar, só quero pensar em uma coisa.
Que fizeste a escolha certa.
Ao meu lado, ou de outrem...
Pois de ilusão não pode viver um homem.

Eu vou estar aqui por você
Para você, por todas as noites outonais.
E, na invernia, toda noite irei regressar,
Vibrar o verão e esperar...
Até você retornar na primaveril manhã.

Acorda-me!
Mostra-me que acertei, e que ficarás para sempre.
Que não és a abstrata alma fugida dos meus sonhos de verão.
Que és a mais das mais belas.
E que cuidarás de mim pela noite.
Janela aberta, vento frio e singelo.
Peito ao peito, corpo ao corpo.
E nada mais.


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Ps.: O onirismo (ou delírio onírico) é um e
stado delirante com vários graus de intensidade, caracterizado por alucinações visuais, da sensibilidade geral e dos músculos. A ele está relacionado a indiferenciação da realidade e do sonho.

6 de julho de 2009

Classificados


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Procuro garota sem namorado, e sem neuroses. Que goste de conversar, de ir ao cinema, ao teatro, exposições e festas de hip hop e à fantasia. Que goste de viajar e acampar perto de cachoeiras e na praia. Que não se aborreça se eu esquecer de ligar no dia seguinte. Que goste de brincar na cozinha, que goste de surpresas e que não se importe em comer um cachorro quente no final da noite.

Procuro garota que goste de curtir um friozinho perto da lareira, aproveitando um vinho em taça grande de cristal, um fondue e o calor do meu peito. E que goste de correr e dançar na chuva e nadar no mar à noite, quando ninguém tiver nos vendo. E que aceite minhas meias de lã quando nada mais der resultado.

Procuro garota que seja simpática e alegre, modesta e inteligente. Que goste de admirar as estrelas e de fazer carinho nas minhas costas. E que adore fazer coisas novas, criativas e que não se aborreça (muito) se eu roncar a noite. E que desenhe nas nuvens do céu.

Procuro garota que goste de dividir a conta, mas que não se chateie se eu me oferecer para pagá-la por completo. E que goste de fazer jogos de amor, vendando meus olhos e me fazendo descobrir os desejos que não posso ver.

Procuro garota que seja fiel e goste realmente de mim, e que deixaria tudo para viver comigo, mesmo que nem pensemos em fazer isso. Que goste de dançar e que não fique brava se eu beber um pouco a mais no baile. Que goste de ouvir música perto da piscina e que não se importe com o papo viajante dos meus amigos.

Procuro garota que não se importe se a grana faltar e tivermos que assistir um videozinho na noite de sábado, comendo pipoca e se embrulhando no cobertor. E que seja, sem força, a mais encantadora mulher ao me acompanhar em jantares de gala.

Procuro uma garota que me ligue para perguntar como foi meu dia, mas que não fique mais do que 5 minutos no telefone. Que me escreva emails, que goste de ficar me olhando e que não se sinta mal se eu chorar perante sua beleza. E que ao menos finja que gostou do meu esforçado café da manhã.

Procuro garota que goste de caminhar no parque e de comer qualquer tipo de massa. E que não gaste mais do que 5 dólares no meu presente de aniversário.

Procuro uma garota que não posso ver, que está em total desencontro comigo. Procuro alguém que se esconde por medo ou por insegurança. Procuro ela que está longe ou que ainda não conheço, que está onde minha vista não alcança.

Procuro garota que possa estar debaixo do meu nariz, mas que meus olhos e coração não conseguem perceber...

Por favor, se você souber dessa garota... Fale que tem alguém esperando por ela, e que sem ela a vida dele não tem muito sentido.


- φ -

4 de julho de 2009

O jovem estasiófobo


- ¸ -

Via todos passarem correndo.
Do seu canto vazio imaginava
A coragem daqueles que iam.
Andando, no medo, cairia.

Perdia-se aonde ficava, na solidão.
Adorava-a, odiava-a. Respeitava-a.
Para si, sabia que não haveria
Outra realidade ou vida sã. Ilusão.

O porquê dele ficar ali, vadiando,
Ora deitado, ora sentado,
Vagabundo dos lençóis desdobrados,
Ninguém se importava em entender.

Passou dia, outro dia. Mês e ano.
A família pelejava, ninguém o levantaria.
Veio sem avisar, no silêncio molhado,
O avô rodando em cadeira de guia.

Olhou fundo nos olhos do neto e
Deitou sua mão cansada no choroso braço.
“Uma hora isso passa, noite ou dia.
Enquanto isso, te faço companhia”.


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Ps.: Estasiofobia é o medo profundo, irracional, mórbido e persistente em manter-se de pé. Apesar de parecer absurdo e inexistente, muitos idosos sofrem desta fobia.

1 de julho de 2009

Meio dia na enfermaria


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Despertou. Pensou. Sentou. Procurou. Encontrou. Constatou. Chamou. Reclamou. Esperou. Almoçou. Limpou. Procurou. Encontrou. Ligou. Deitou. Assistiu. Aumentou. Mudou. Assistiu. Mudou. Assistiu. Pensou. Chorou. Mudou. Assistiu. Sorriu. Riu. Gargalhou. Desligou. Sentou. Chamou. Informou. Arriou. Urinou. Subiu. Agradeceu. Procurou. Pegou. Descartou. Pegou. Descartou. Pegou. Escolheu. Deitou. Abriu. Leu. Folheou. Leu. Folheou. Leu. Riu. Folheou. Leu. Entristeceu. Folheou. Leu. Fechou. Sentou. Descartou. Pegou. Bebeu. Deitou. Cobriu. Repousou.

- Λ -