Estiveram a me rodear noite inteira. Eu, na minha íntegra solidão, punha-me a resguardar. Planejei demais, pensei. Planejei viajar pela África e pelas ilhas do sul. Planejei ter dinheiro, mais amigos e mais. Planejei ter uma casa com cerca branca e gramado verdejante. Planejei uma bela esposa e filhos que comigo jogassem bola. Planejei viagens, e vinhos tardios aos 70 anos. Planejei um emprego ótimo e que me dignificasse. Planejei ver mais filmes, e mais casamentos. Planejei casar, e ter filhos, e ter netos. Planejei a festa de quinze anos da minha filha, e os conselhos ao meu garoto. Planejei mais, até onde o vento poderia correr. Planejei ter vida para sempre, planejei envelhecer ao lado de alguém que me amasse. E planejei amar os meus afilhados, e dar vários netos àqueles que sempre me amaram. Planejei ser feliz, sempre alegre e sempre realizado. Planejei ecos de amor, de realização e de solicitude. Planejei ir além, até o infinito. Mas, pai, mãe, irmãos, amigos... Planejei demais. Nesta noite em que me rodeam, gostaria de lhes dizer que planejei demais. Planejei a vida que jamais seguirei, que jamais viverei. Não há tempo para planejar a vida: viver tem de ser agora. Enquanto me rodeam, gostaria de dizer que é preciso viver, viver intensamente, como se não houvesse o amanhã. Pois todo dia que nasce, é o indício que outro dia chegou ao fim. E viver não pode esperar. Viver não pode esperar.
Um grande abraço de quem vai cedo demais.
Um grande abraço de quem vai cedo demais.
Ps.: Ao Kaká, pelos seus 22 anos plenamente vividos.

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