13 de julho de 2010

O dia que não acertei

- ^ -

É errado errar. Nos algemaram no primeiro dia em que nos mostraram o que é o certo, e o que não é, e nos podaram o direito moral do arbítrio viver livre. Quero errar simplesmente pelo fato de não ter a obrigação de acertar, de não me esfolar pela glória e nem me estafar pela vitória.

Quero ter o direito de errar! Quero ignorar a perfeição ensandecidamente perseguida. Quero deitar sob a sombra serena da falta de certeza plena, uma certeza que nos consome raciocínios complexos e nos faz perder as brisas quentes do verão.

Malditas sejam as sempre, sempre acuradas respostas! Vazias do propósito de simplesmente existirem; exigentes de atenções e paparicos e zelo eterno; ladras dos momentos simples da vida por ela mesma; rainhas que dependem e se viciam no gozo insaciável dos que se desfazem de seus desejos próprios em seu nome.

Quantas noites estreladas deixei de admirar? Quantos casulos ignorei e, depois, ignorei também suas borboletas? Quantos perfumes de flores frescas ou pães assados, ou arco-íris, ou chuvas de final de tarde, ou abraços de amigos, ou livros deixei de ler pela obsessão em conquistar a perfeição?

Darei-me o luxo de, senhor de mim, decidir o que irei acertar e o que irei errar. Pois se, para tantos, é o meu "errado" o "bom" deles, então, à partir de hoje, só errado serei.

- Λ -

23 de junho de 2010

Vazão hermética

- -

Desordenaremos tudo.


Desde pequenos, colocados em jarros,

Vidros assépticos, inodoros e imaculados

Sem fissuras possíveis, como em um tempo eterno e parado.

Sem um arranhão que me faça pensar,

Ou sem uma dúvida que me interpele

E me engrandeça.


Desordenemos tudo!


Pandora aberta,

O mundo inteiro me invadiu.

Será o caos problema ou solução?


Nada mais de papéis brancos e lisos.

À partir de hoje serei o rascunho

Que sempre se refaz.

Um complexo desenho em constante modificação.


Seremos os donos dos grafites;

Seremos o próprio muro.


Potes rachados, trincados;

Tijolos raspados, lixados,

Mas jamais quebrados por completo.


Só dentro da redoma pitoresca de uma vida cheia de oportunidades

Ou da trama apresentada crua em tintas frescas ao céu aberto

Poderemos ter as vaidades que quisermos.

Poderemos enxergar sem os pecados inutilmente herdados.


Desordenamos tudo.


Abolimos as borrachas,

Pois todo e qualquer traço marcado

Contribui e enobrece

A grande arte final.


Reordenemos tudo.


Não existem cores absurdas e nem riscos malfeitos.

Todos eles fazem parte da fabulosa pintura da vida.


- -

1 de janeiro de 2010

Esquete romântica de Eros


- ¸ -

Ato 1

O dia que percebi o amor, fiquei ali estático. Na minha frente, um prato quase cheio – enquanto minha fome já havia se perdido entre os meus pensamentos. Meio copo de champagne, que perdia as bolhas para um ar sóbrio demais para me entender. Pois a paixão rouba tudo: sonhos, pensamentos, fome, minutos, copos. Aliás, onde foi parar o meu copo de whiskey que perdi minutos depois, mas ainda dentro daquele momento, sem nunca mais encontrar? O amor te conquista como montanha difícil de ser escalada, e que deixa saudade quando dominada. E também rouba o sono, te acorda no meio da madrugada; ou ainda te importuna sem barreiras durante uma prova de inglês – como turbilhão intrépido, ferrenho, inebriante. Este sentimento é muito maior que os segundos que você levará para tentar afogá-lo, e disso logo você perceberá. Contra o Amor nada se pode. Contra o Amor, esse desatador de membros, criatura contra a qual nada pode ser feito, doce-amargo que tarda a se aquetar... Contra o Amor nada pode ser feito.

Ato 2

Consuma e inebrie-se na maior e mais poderosa droga do mundo. A Eros todas as taças dos amantes levantam-se em torpor ritmado. Ao minuto virgem da cadente mão, do palpitante coração, do lábio que treme sem explicação e dos olhos que brilham de paixão, brindaremos pelo sentimento que eles exprimem sem palavra dizer.

- -